
O meu primeiro contacto com o Rotary Satellite Club – Oeiras Lean (RSCOL) aconteceu há cerca de um ano, quando decidi inscrever-me numa formação com um objetivo simples e muito prático: perceber o que era, afinal, o Lean e de que forma poderia ser aplicado à minha atividade de mediação imobiliária. Cheguei com curiosidade e vontade de aprender algo novo que tivesse utilidade real no meu dia a dia profissional, num contexto em que decisões, prioridades e gestão do tempo fazem uma diferença concreta nos resultados.
Desde então, frequentei duas formações. Nunca as encarei como algo meramente académico. Para mim, o valor está na ponte entre o conceito e a prática, entre o método e a realidade concreta de quem trabalha diariamente com pessoas, processos e decisões, muitas vezes sob pressão.
Trabalho num contexto onde a variedade de assuntos e de interlocutores é constante. Clientes, colegas, parceiros, plataformas diferentes, canais de comunicação distintos. Esta multiplicidade, que é uma riqueza, também é um desafio sério à organização e ao foco. Se não existir uma disciplina mínima na forma como o trabalho é estruturado, o risco é simples: o essencial perde-se no meio do acessório e a qualidade do trabalho sofre. E quando a qualidade sofre, o impacto não é apenas interno, reflete-se inevitavelmente no serviço prestado e nas decisões tomadas.
Foi precisamente nesse contexto que comecei a sentir que precisava de repensar a minha forma de trabalhar. Não no sentido de trabalhar menos, mas de trabalhar melhor: criar critérios, saber dizer não a certas solicitações e impor alguma ordem num fluxo de informação que tende naturalmente para o excesso. O Lean apareceu, para mim, como uma possível resposta a essa necessidade, como uma forma diferente de olhar para processos, rotinas e prioridades.
Um dos exemplos mais concretos dessa realidade era, e ainda é, o e-mail. Todos os dias recebo centenas de mensagens. A grande maioria não é dirigida a mim de forma direta, nem resolve, nem contribui para algo que eu precise efetivamente de fazer. Durante muito tempo, a minha gestão da inbox foi reativa e pouco estruturada. Ia vendo o que era mesmo para mim, ignorava o resto e, periodicamente, fazia limpezas mais ou menos radicais, normalmente quando surgia o aviso de que a caixa estava cheia. Era uma gestão baseada mais na urgência do que no critério.
Este método tinha dois problemas óbvios e ambos pesavam no dia a dia. Primeiro, criava ruído constante. A caixa de entrada estava quase sempre cheia de informação irrelevante, o que tornava mais difícil identificar rapidamente o que era importante e o que exigia uma resposta ou decisão imediata. Segundo, introduzia um stress desnecessário, porque a sensação de acumulação e de descontrolo estava sempre presente, mesmo quando, objetivamente, as tarefas estavam a ser cumpridas e o trabalho avançava.
No contexto da formação “O Tao do Lean – Starter 1”, integrando a equipa Kiichiro Toyoda, surgiu a oportunidade de transformar este problema num trabalho prático. A proposta de tema foi simples: como gerir de forma prática e eficiente as nossas caixas de correio eletrónico. No meu setor, e em particular na mediação imobiliária, o e-mail tornou-se muitas vezes mais um meio de publicidade do que uma ferramenta de trabalho. Para mim, esta utilização do e-mail é, além de ineficiente, pouco respeitadora do tempo de quem recebe e da função que esta ferramenta deveria cumprir.
O problema não era apenas o volume. Era a forma como esse volume contaminava a capacidade de usar o e-mail como aquilo que ele deveria ser: um instrumento de trabalho, de coordenação, de decisão e de registo. Quando tudo entra da mesma forma, sem filtros, sem prioridades e sem critérios claros, o que deveria ajudar passa facilmente a atrapalhar. Foi este o ponto de partida do nosso trabalho de grupo.
Uma das coisas mais interessantes deste processo foi perceber que as soluções em si não eram, na maioria dos casos, revolucionárias. Não descobri nenhuma ferramenta secreta nem nenhum truque milagroso. Muitas das boas práticas já as conhecia. A verdadeira diferença esteve noutro lado: na quantificação do impacto, na consciência clara do tempo perdido e, sobretudo, na disciplina necessária para aplicar essas práticas de forma consistente, dia após dia, mesmo quando a tentação de voltar aos velhos hábitos é grande.
É aqui que entra o Formulário 3C, que para mim foi uma novidade. Mais do que uma ferramenta, funcionou como uma forma estruturada de pensar. Ajudou-me a separar sintomas de causas, a não ficar apenas pela implementação de medidas, mas a medir e a avaliar a sua eficácia. Esta lógica de medir para poder melhorar, e de melhorar de forma contínua, foi talvez o maior ensinamento que retirei de todo o processo, porque obriga a sair da perceção subjetiva e a entrar num terreno mais objetivo e mais exigente.
No caso concreto do e-mail, a mudança principal foi de atitude e de hábito. Passei a lidar diariamente com todas as situações que aparecem na inbox. Cada mensagem tem um destino claro: ou é resolvida, ou é transformada numa ação, ou é arquivada, ou é eliminada. Paralelamente, comecei a criar regras automáticas, a cancelar subscrições desnecessárias e a filtrar, logo à entrada, grande parte do correio não solicitado. Pequenas decisões, aplicadas de forma consistente, começaram a produzir efeitos visíveis.
O resultado não foi apenas uma caixa de entrada mais limpa, mas sim uma mudança na forma de trabalhar. Foi, sobretudo, uma caixa de entrada que passou a refletir aquilo que realmente tenho de fazer. Hoje, quando abro o e-mail de trabalho, vejo tarefas concretas, não vejo ruído. Isso traz uma tranquilidade operacional enorme.
É importante sublinhar uma coisa: esta melhoria não criou ‘tempo livre’ no sentido clássico da expressão. No meu caso, e creio que em muitos contextos profissionais exigentes, o tempo libertado num processo tende a ser reinvestido noutros. O que mudou foi a qualidade desse tempo. Há menos stress, mais foco e maior capacidade de identificar rapidamente o que precisa de ser corrigido ou ajustado.
Talvez mais relevante ainda seja o facto de esta forma de pensar não ter ficado confinada ao correio eletrónico. Comecei a aplicar a mesma lógica a outras áreas. Medir a comunicação, medir os resultados de reuniões com clientes, analisar o que correu bem e tentar melhorar, perceber o que correu mal e corrigir. Este não é um trabalho intuitivo nem imediato. Exige disciplina e consistência.
As minhas expectativas iniciais em relação à formação eram quase inexistentes. Entro sempre em processos de aprendizagem com a mesma postura: aprender algo novo e perceber se tem utilidade prática. Neste caso, a utilidade revelou-se não num conjunto fechado de técnicas, mas numa mudança de mentalidade. Passar de uma lógica reativa para uma lógica de melhoria contínua, baseada em observação, medição e ajuste, é uma transformação que não acontece de um dia para o outro.
Se tivesse de recomendar esta formação, fá-lo-ia, sem hesitar, a colegas da minha própria profissão. A mediação imobiliária envolve muitos intervenientes, muitos processos interligados e uma complexidade operacional que facilmente se torna difícil de gerir sem método. O Lean veio clarificar, dar linguagem aos problemas e estrutura às soluções possíveis.
Não se trata de vender a ideia de uma solução milagrosa. Trata-se, isso sim, de reconhecer que todos os processos podem ser melhorados e que essa melhoria começa quase sempre por pequenas mudanças consistentes, aplicadas com disciplina, acompanhadas por medição e sustentadas no tempo.
Não posso terminar sem deixar uma palavra de reconhecimento ao trabalho que o RSCOL tem vindo a desenvolver na divulgação do pensamento Lean em Portugal. A forma como aproxima estes conceitos da prática, através da formação, é essencial para que mais profissionais possam não apenas conhecer o Lean, mas sobretudo aplicá-lo de forma consistente no seu dia a dia, nos seus próprios contextos e desafios.
Se tivesse de resumir tudo isto num episódio simbólico, escolheria a transformação da minha inbox. Eliminar o ruído, ficar apenas com o que importa e usar essa clareza como base para decidir melhor. No fundo, foi isso que o Lean me trouxe até agora.
E talvez o mais importante, a noção de que melhorar não é um projeto com fim marcado. É um processo contínuo.