ROTARY CLUB DE MACAU | 澳門扶輪社

Uma ponte rotária entre culturas e serviço | 一座連結文化與服務的扶輪橋樑

Por João Francisco Pinto

A história do Rotary Club de Macau começa de forma simples, como tantas outras histórias rotárias que acabam por ganhar densidade com o tempo. Foi à volta de uma mesa, num restaurante da cidade, o Fat Siu Lau, que um pequeno grupo de homens, ligados por amizade, curiosidade intelectual e sentido cívico, decide dar forma a uma ideia que já circulava havia quase uma década e que a guerra tinha adiado.

Macau, em meados da década de 1940, era uma cidade singular. Pequena em dimensão, intensa em cruzamentos humanos, vivia da convivência prática entre as comunidades portuguesa, chinesa e internacional. Porto franco, refúgio durante a Segunda Guerra Mundial, lugar de comércio, passagem e permanência, tinha uma identidade moldada pelo contacto diário entre culturas. Este contexto ajuda a compreender porque o Rotary encontrou ali terreno fértil.

A primeira tentativa de criar um clube surge em 1938. Um grupo de amigos discute os princípios do Rotary e tenta perceber se faria sentido implantá-los em Macau. Entre eles estavam o advogado Dr. Pedro Guimarães Lobato e o Dr. Hermann Machado Monteiro, figura ligada ao jornal Notícias de Macau. Faltava, porém, conhecimento rotário estruturado e, sobretudo, apoio institucional. O projeto fica suspenso, à espera de melhores circunstâncias.

Essas circunstâncias surgem em 1946, com o fim da guerra e a retoma progressiva da vida normal na região. A peça-chave desta nova fase chama-se Henrique Nolasco Jr. Em viagens frequentes a Hong Kong, é convidado por Robert Choa a assistir a uma reunião do Rotary Club de Hong Kong. O que encontra impressiona-o pela clareza do método e pela naturalidade do companheirismo. Regressa a Macau convencido de que aquele modelo de serviço, baseado em reuniões regulares, responsabilidade profissional e ação concreta na comunidade, fazia sentido na sua cidade.

O Rotary Club de Hong Kong assume o patrocínio do novo clube e designa um representante especial para acompanhar o processo, o Dr. Arthur W. Woo, antigo presidente daquele clube. Woo desloca-se a Macau e convoca um almoço no Fat Siu Lau, reunindo 16 pessoas de diferentes áreas profissionais. Apresenta o Rotary com detalhe, responde a dúvidas, explica exigências e responsabilidades. A ideia é clara, um clube rotário só existe se houver compromisso regular e trabalho consequente.

O passo decisivo acontece a 11 de janeiro de 1947. Num jantar, no mesmo restaurante, realiza-se a primeira reunião de organização do futuro Rotary Club de Macau. É eleito o primeiro Conselho Diretor. Augusto de Castro Rodrigues, Capitão do Porto, assume a presidência. Henrique Nolasco Jr. fica como secretário. O clube começa a funcionar em regime provisório e define o inglês como língua oficial, opção pragmática numa cidade onde várias comunidades convivem diariamente.

Enquanto o processo administrativo avançava junto do Rotary International, o clube não esperou. Ainda provisório, criou um Fundo de Ação Social, orientado para necessidades concretas da comunidade. Os apoios distribuíram-se por lares de idosos e indigentes, pela Cruz Vermelha Portuguesa, por instituições educativas como o Canossian Institute, escolas primárias e comerciais, o Salesian Orphanage, e por unidades de saúde como o Hospital Kiang Wu e o Hospital São Rafael. Taipa e Coloane também beneficiaram desse trabalho. Um dos projetos mais emblemáticos foi a criação de uma Biblioteca Infantil Rotária, pensada para alunos do ensino primário, num tempo em que o acesso a livros era limitado para muitas famílias.

A formalização chega a 16 de junho de 1947. O Rotary Club de Macau é admitido no Rotary International com o Charter número 6662. A recomendação tinha sido enviada pelo governador do Distrito, Chengting Thomas Wang, ao presidente do Rotary International, Richard C. Hedke, detalhando o patrocínio de Hong Kong, o acompanhamento do Dr. Arthur Woo e a composição do Conselho Diretor. Pouco depois, chega um telegrama de felicitação enviado de Lisboa por Ernesto Santos Bastos, então diretor do Rotary International, ligando simbolicamente Portugal ao nascimento do clube no Extremo Oriente.

A lista de sócios fundadores era um retrato fiel de Macau em 1947. Nela surgem responsáveis da administração portuguesa, membros destacados da comunidade chinesa, representantes diplomáticos britânicos, médicos, juristas, banqueiros, dirigentes de serviços públicos e de empresas privadas, como água e eletricidade. Um mosaico profissional e cultural que explica a vitalidade inicial do clube. O Rotary encontrou ali um grupo habituado a colaborar, a resolver problemas práticos e a assumir responsabilidades públicas.

O enquadramento histórico da cidade ajuda a dar profundidade a esta história. A presença portuguesa em Macau remonta a 1557, num processo gradual de autorização e fixação que se consolidaram ao longo dos séculos. O Tratado de Pequim, assinado em 1887, formalizou a administração portuguesa, enquadramento que se manteve até à transferência de soberania para a China em 1999. Em 2005, o centro histórico de Macau seria reconhecido como Património Mundial da UNESCO, confirmando a singularidade intercultural do território.

O Rotary Club de Macau nasce, assim, como extensão natural dessa identidade. Um clube onde se falam várias línguas, que reúne pessoas de origens diversas, tendo chegado a ter membros de onze nacionalidades e que trabalha com foco nas necessidades reais da comunidade. A sua fundação mostra como o Rotary se adapta aos contextos locais sem perder coerência, e como o serviço ganha força quando assenta em conhecimento do terreno e compromisso continuado.

Hoje, o Rotary Club de Macau conta com 39 membros, incluindo 12 mulheres que lideram várias comissões. A sua ação vai muito além dos projetos desenvolvidos na pequena e histórica “Cidade do Santo Nome de Deus”, estendendo-se ao apoio internacional em plena sintonia com o espírito do Rotary International. O clube participou ativamente na campanha contra a fome na Etiópia, no socorro às vítimas de catástrofes na Colômbia, Bangladesh e China, bem como em projetos de saneamento e de acesso à água potável no Camboja, na formação de médicos e enfermeiros em vários países do Sudeste Asiático, no financiamento de cirurgias a crianças com problemas cardíacos congénitos no Vietname e no desenvolvimento económico de comunidades remotas nas Filipinas, entre muitas outras iniciativas

Outro aspeto importante é a luta contra a poliomielite. O objetivo de erradicar o vírus tem motivado os membros do Clube a fazer elevadas contribuições para o Programa Pólio Plus.

No entanto, também há trabalho feito em colaboração com clubes em Portugal. Nos anos mais recentes, destaca-se a colaboração com o Rotary Clube de Lisboa, que permitiu a aquisição de um frigorífico de grande capacidade para a Associação de Auxílio e Amizade. Outro projeto foi desenvolvido com o Rotary Clube Parede-Carcavelos, tendo sido possível adquirir máquinas de lavar roupa para comunidades terapêuticas geridas pela Associação Ares do Pinhal. Por fim, em colaboração com o Rotary Club de Vila Franca de Xira, foi doado um baloiço inclusivo, de modo a permitir que crianças com necessidades especiais brinquem lado a lado com todas as outras crianças.

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Para o Rotary em Portugal, esta história tem um valor particular. Revela como, ainda antes da internacionalização acelerada do pós-guerra, já existiam pontes humanas e institucionais que ligavam Lisboa, Hong Kong e Macau através do ideal rotário. Quase oitenta anos depois, o Rotary Club de Macau permanece como testemunho de que o serviço, quando feito com método e abertura, atravessa fronteiras e resiste ao tempo.


O Rotary em Macau

Na década de 70 do século passado, o desenvolvimento de Macau levou ao crescimento do movimento rotário naquela região. Novos clubes foram fundados, como o Rotary Club de Hou Kuong, em 1978, o Rotary Club de Macau Central, em 1984, o Rotary Club de Amagao, em 1986, o Rotary Club de Guia, em 1993, o Rotary Club de Macau Islands, em 1997, o Rotary Club de Taipa, em 2007, o Rotary Club de Amizade Macau, em 2013, o Rotary Club de Penha Macau, em 2016, e o Rotary Club de Oriental Pearl Macau, em 2020.

De entre todos estes clubes, apenas o Rotary Club de Amagao, o único que usava a língua portuguesa, deixou de estar ativo. Terá sido extinto em 2001, pouco depois da transferência de administração de Macau para a República Popular da China. Um dos últimos presidentes eleitos deste clube foi Vítor Cordeiro (PDG D1970), que não viria a assumir o cargo por ter regressado a Portugal no início de 2000.

Os oito clubes rotários em Macau têm atualmente um total de 94 membros, constituindo a Área 1 do Distrito 3450, que congrega Hong Kong, Macau, Mongólia e a Província de Guangdong.

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