
Alguns líderes passam por Rotary. Outros deixam o Rotary diferente. Manuel Serôdio pertence a esta segunda categoria, a dos que procuram moldar culturas, exigindo elevados padrões que inspiram gerações. Governador do então Distrito 197 (mais tarde 1970), no ano rotário 1985-1986, destacou-se pela exigência ética, pela clareza de visão e por uma profunda compreensão do papel transformador do serviço.
Natural de Celeirós, Sabrosa, Manuel Serôdio viveu grande parte da vida no Porto. Engenheiro civil, formado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), parte para Luanda em 1960, onde foi responsável por obras estruturantes. Aí nasceram os seus quatro filhos. Regressado a Portugal em 1967, integrou a Sociedade de Construções William Graham, que viria a administrar até à década de 1990. O seu percurso profissional incluiu ainda funções públicas, tendo sido Secretário de Estado da Habitação, Urbanismo e Construção, no 6º Governo Provisório, e, mais tarde, Presidente da Associação de Industriais da Construção Civil do Norte.
Atento à vida política e social, Manuel Serôdio era igualmente um apaixonado pelo Douro, pelas vindimas da quinta de família, pela leitura diária e pela música erudita. Casou com Maria da Assunção, em 1960, e é um pai, avô e bisavô dedicado, encontrando na família o seu equilíbrio.
Rotary como responsabilidade ética e social
O seu caminho rotário começou por influência de antigos colegas do Liceu Alexandre Herculano. No Rotary Club do Porto encontrou o que procurava, convivência entre profissionais, espírito de missão e compromisso com a comunidade. Foi membro de assiduidade exemplar, presidente do Clube em 1981-1982 e governador do Distrito em 1985-1986.
O contexto do país era exigente, marcado por tensões sociais e por uma crise de valores, mas acreditava que Rotary tinha de ser mais do que um conjunto de boas intenções. Deveria ser uma referência ética, um movimento de opinião capaz de influenciar positivamente a sociedade. Logo no início do ano rotário apelou à ação e à consciência: “A sociedade busca reencontrar os seus caminhos. Vamos animá-la refletindo, no interior das nossas comunidades, novos caminhos de convivência.”
“Você é a Chave”
O lema do Presidente de RI, Edward F. Cadman, simples e poderoso – You Are the Key (Você é a Chave) – transformou-se numa pedagogia de responsabilidade pessoal, pois considerava que cada rotário era literalmente uma chave para manter Rotary vivo, ético e atuante. “Enquanto estivermos em Rotary, nenhum outro rotário pode realizar a nossa tarefa.”
Esta visão humanista marcou o Distrito. Manuel Serôdio sabia que o impacto de Rotary não nasce das estruturas, mas das pessoas e da sua assiduidade e ação.
Serviço com ética, tolerância e ação
Em tempo de polarização, Manuel Serôdio defendia Rotary como espaço de diálogo entre diferentes convicções políticas e religiosas, um património que considerava essencial. Rotary era um espaço de encontro, não de confronto, um lugar onde a ética profissional, a tolerância, a cortesia e a responsabilidade cívica, eram tão importantes como os projetos de serviço. Valores que continuam a ser pilares de Rotary. Serôdio alertava insistentemente: “mostremos quão diferentes somos.”
Exigente consigo próprio e com os clubes, Manuel Serôdio rejeitava o Rotary burocrático ou meramente financeiro e afirmava que “Rotary não é contribuir monetariamente, é dar de nós em participação, em ocupação, em inteligência.”
Promovia projetos concretos, bem estruturados e concluídos dentro do ano rotário, e acreditava que cada ação deveria ser escolhida com rigor, alinhada com os recursos e com as capacidades disponíveis no clube e sempre orientada para o Ideal de Servir.
Família e companheirismo
Manuel Serôdio reconhecia o papel das famílias como alicerce do companheirismo. A presença e o apoio constante da sua esposa, Maria da Assunção, foi determinante para que pudesse desempenhar todas as responsabilidades que abraçou. Via as companheiras como “elo de ligação” que sustentava a vida dos clubes, antecipando a importância que o Rotary viria a dar à participação familiar e à diversidade.
Exemplo de serviço inspirador
Quarenta anos depois, as suas palavras continuam a fazer sentido. A defesa da ética, a importância da assiduidade, na verdadeira acessão da palavra, a necessidade de ação concreta, a diversidade e a responsabilidade individual, permanecem no centro da identidade rotária.
Manuel Serôdio foi um governador de Distrito que compreendeu o Rotary como uma organização capaz de influenciar centros de decisão, de melhorar relações humanas e de transformar positivamente comunidades. Um líder que acreditava profundamente no poder de cada rotário e que fez da frase inspiradora “Você é a Chave”, a essência de uma vida de serviço nas vertentes familiar, profissional e rotária.
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Antes de 1985
• Nasce em Celeirós, Sabrosa
• Engenheiro Civil, pela FEUP
• Trabalha em Luanda, desde 1960, responsável por obras estruturantes
• Ali nascem os 4 filhos
• Regressa ao Porto (1967) e integra a William Graham, que viria a administrar
• Integra o 6º Governo Provisório, em 1975, como Secretário de Estado
• Mantém forte ligação ao Douro e à vida familiar
• Entra no Rotary Club do Porto
• Participa ativamente em projetos e companheirismo
1985-1986
• Governador do Distrito 197 (mais tarde 1970)
• Lidera num período de instabilidade social e política
• Aprofunda o lema “Você é a Chave”
• Reforça ética, assiduidade e responsabilidade individual
• Valoriza o papel das famílias e a convivência entre diferentes convicções
• Incentiva projetos concretos, concluídos dentro do ano rotário
• Visitas oficiais marcadas por proximidade e exigência
Após 1986
• Continua a servir o Distrito em várias funções
• Preside à Associação de Industriais da Construção Civil do Norte
• Mantém atividade profissional e comunitária com forte sentido ético
• Torna‑se referência para sucessivas gerações de rotários